novembro 30, 2022

The Pedagogy for Freedom Collective aims to transform basic education in Brazil

Educação, coletivo, periferia, missão, Zona Norte, paixão, ações afirmativas, propósito de vida. Todas essas palavras se articulam e se conectam perfeitamente no discurso da empresária Daniela Benício que acaba de instalar, no Moinho, a sede do coletivo de educadores Pedagogia para Liberdade. Grupo que, há sete anos, está transformando a educação brasileira, atuando diretamente na formação de professores, sobretudo, de escolas públicas, com núcleos em Juiz de Fora, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Brasília. Nesta entrevista, Dani Benício, como prefere ser chamada, fala do salto que estão dando com a criação da faculdade Somas, da necessidade de decolonizar a educação e de como as periferias são, de fato, as grandes protagonistas do processo de inclusão e transformação social. “Estar no Moinho me faz sentir extremamente coerente com o discurso da Pedagogia para Liberdade”, diz. “É uma reparação cultural que estamos fazendo”. 

 

Moinho – O que é a Pedagogia Para Liberdade? 

Daniela Benício – “É um projeto coletivo que tem como missão transformar a educação de base no Brasil, formando professores que tenham amor por educação, amor pela infância, para que a gente possa repensar metodologias educacionais. Ela nasceu de uma dor pessoal em relação à formação e aos conteúdos educacionais e de um olhar para os meus filhos, para as infâncias, para tudo aquilo que a gente sente que precisa mudar. Começamos a botar a mão na massa, a juntar professores do Brasil inteiro – a maioria de escola pública -, que estão transformando a educação no Brasil. Pessoas incríveis que valorizam a cultura popular brasileira, nossa matriz cultural, ou seja, as questões étnico-raciais, de indígenas e negros. A cultura legitimamente brasileira, assim como também questões relacionadas ao meio ambiente na forma da gente se reconectar com a natureza. Há um déficit nesta relação com as infâncias, com as crianças, com os adultos, com os seres humanos. É um processo de educação que pensa em tudo isso, além da inclusão em vários aspectos, não só em relação às limitações físicas ou questões de direitos enfim, mas também a inclusão de seres humanos diferentes, porque todos nós somos diferentes. A gente trabalha também a educação para igualdade de gênero. É muita coisa. Muita coisa nasce daí.  

 

– Há quanto tempo realizam este trabalho? 

Existimos há sete anos e a pandemia fez a gente se reinventar. Começamos em Juiz de Fora, mas já estamos em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília. A necessidade do distanciamento social quebrou para sempre o paradigma da educação. Os adultos não querem voltar para o presencial. Conciliamos esse lugar do ensino a distância com imersões de experiências pessoais e coletivas. Todo mundo no mesmo espaço, convivendo junto e desenvolvendo experiências impactantes. A Pedagogia Para Liberdade é uma licenciatura em Pedagogia. É destinada a qualquer pessoa que já tenha um diploma e que entenda a educação como uma forma de mudar o mundo. Além disso, a gente tem várias pós-graduações, como a de Educação Sistêmica, que olha para a floresta, para a nossa reconexão com esse mundo e para os modelos de design institucionais. Temos uma pós-graduação em Comida, Cultura e as Infâncias que é sensacional. Uma das professoras é a Bela Gil, que estará, inclusive, nas nossas interações. Comida é cultura, e de que forma a gente pensa a cultura a partir dela? Quais são as influências da alimentação que temos no Brasil e como trabalhamos isso? Não é uma pós-graduação que vai falar da qualidade da comida, mas sobre a história da comida. Temos também uma pós-graduação de Corpo e Educação que trabalha com fluidos corporais e o desenvolvimento corporal desde a infância. Há ainda a pós em Relações Étnico-raciais que é a nossa queridinha por tratar de um tema tão importante. Isso perpassa não só a matriz africana, mas a indígena também, assim como tudo o que implica nas formas de violência, na educação antirracista de verdade, no modo como os brancos podem ser antirracistas. Crianças nascem sem preconceito. As escolas, infelizmente, têm reforçado o preconceito e o racismo. É urgente desconstruir esse tipo de educação. Outra pós-graduação que oferecemos é para Igualdade de Gênero com discussão sobre masculinidades e todas as diferenças que existem hoje no mundo. É um tema super polêmico e também super necessário.  

 

– O que é a Somas e o que o Moinho tem a ver com ela?  

A gente está dando um grande salto aqui no Moinho. Estamos fundando a nossa faculdade, que é a Somas. Uma palavra no feminino com uma infinidade de coisas que cabem dentro dela, porque somos a soma de tantas coisas e estamos sempre somando elementos na nossa vida. A faculdade está nascendo nesse contexto do Moinho que tem tudo a ver com aquilo que a gente acredita, com aquilo que a gente vê que o mundo precisa. É muito bacana, inclusive estar na periferia, porque alicerça muito dos nossos valores. A gente quebra paradigmas e acrescenta outros desafios, coisas impensáveis. Vamos começar com três cursos: Pedagogia, Administração e Desenvolvimento e Análise de Sistemas. O curso de Administração é fora da caixa com reflexão sobre pensamento integral e institucional, meio ambiente, questões socioambientais, responsabilidade social, diversidade, papel da mulher. Enfim, uma administração do século 21. É uma proposta bem inovadora, que fala de empreendedorismo, dialogando muito com os jovens de hoje. O curso de Desenvolvimento e Análise de Sistemas está diretamente ligado à inovação, às profissões do futuro e à tecnologia. Os cursos de Pedagogia e Administração têm quatro anos de duração e o de Desenvolvimento e Análise de Sistemas dois anos. A Somas está sediada em Juiz de Fora, mas vamos atuar no Brasil inteiro com interações, experiências presenciais e uma série de workshops no Moinho, para aproveitar essa estrutura maravilhosa, e em outros polos parceiros.  

 

– Em que fase de constituição está a Somas? 

Estamos cuidando da parte das legalidades, adentrando no sistema do Ministério da Educação (MEC). É um processo moroso, porque depende de órgão público. Todo trâmite deve levar de oito meses a um ano. Então, a gente acredita que, em meados de 2024, a Somas estará 100% atuante. Enquanto isso, seguimos com uma série de projetos da Pedagogia para Liberdade, que será a entidade mantenedora. Estamos ocupando uma sala no coworking do Moinho, mas vamos ampliar nosso espaço físico também para as estações de trabalho individuais. Temos o projeto de construir uma biblioteca no quinto andar, além de utilizar o espaço multiuso e o auditório. A médio prazo, vamos montar um laboratório de informática com cerca de 30 computadores. Tenho o desejo de promover atividades com a comunidade, com quem está no entorno, para qualificar os meninos, as meninas, os jovens em programação e em outras áreas que dizem respeito à tecnologia, à vida. Com certeza, daqui vão nascer vários projetos coletivos e encontros e experiências compartilhadas. Não tenho dúvida disso.  

 

– Quantos professores já passaram pela Pedagogia Para Liberdade? 

Na verdade, na casa de milhares. Graças a Deus, a gente faz um trabalho muito bonito, de profundidade. São muitas pessoas que estão impactando a educação no Brasil inteiro, nas redes públicas. Pessoas que fundaram escolas, que têm uma pegada de inovação social, de inclusão, diversidade, ou seja, tudo aquilo que a educação precisa: respeito à infância, ao meio ambiente. Nosso grupo de educadores está espalhado pelo país. Esse é um ganho enorme de diversidade. Nosso sonho é realmente chegar, fisicamente, ao Nordeste, ao Norte, (temos alunos lá), porque são regiões ricas em diversidade cultural, inovação, criatividade. 

 

– Quais as estratégias de políticas afirmativas que adotam? 

Hoje a gente tem o sistema de cotas de ações afirmativas. Temos cotas para negros, indígenas e pessoas trans. A gente acredita que a educação precisa dessas pessoas inseridas para ter diversidade na real. São várias políticas de incentivo. Em alguns cursos, privilegiamos pessoas de escola pública. A gente trabalha com pessoas que têm vocação para serem educadores, que estão realizando um propósito na vida. São pessoas que escolheram o caminho da educação, porque acreditam que é uma forma de mudar o mundo. Muitos estão fazendo migração de carreira. Tem que ter muita coragem para isso. Não temos uma educação verdadeiramente brasileira. Ela é muito colonizada. Estamos repetindo o mesmo sistema que não funciona há 50 anos. A gente tem luzes de inovação, mas inovação nem sempre implica em laboratório de informática, de robótica. A educação se dá na singularidade do ser humano. A inovação está exatamente no processo de aprendizagem, na relação do educando com o educador, na conexão com a natureza.  

 

– O que é estar na periferia, na Zona Norte de Juiz de Fora? 

Quando mudei para Juiz de Fora, há 17 anos, montei uma escola em Benfica com a oferta de cursos técnicos. Tinha uma infraestrutura maravilhosa, porque acreditava que a educação precisava ir aonde as pessoas estavam, quebrando o paradigma da centralidade. Percebi um déficit de transporte público na cidade muito sério, porque não temos um terminal de ônibus urbano, o que encarece o custo. Esta é uma pauta que a Zona Norte precisa defender para o transporte público. Fiz muitos trabalhos com as escolas públicas da região. Entendo que a educação inclusiva está na periferia, onde a maioria da população vive e onde a cultura popular acontece. A cultura periférica é a cultura brasileira. Isso é super potente, super importante. Traz uma energia de legitimidade, de estar no lugar certo, no lugar que possa gerar desenvolvimento. A periferia precisa que as pessoas acreditem nela. Precisamos contar outras histórias da Zona Norte que não sejam as de violência. Tem muitas histórias bonitas na periferia. Isso é colocar o eixo onde sempre deveria estar. É uma reparação cultural que estamos fazendo. Estou muito feliz. Estar no Moinho me faz sentir extremamente coerente com o discurso da Pedagogia para Liberdade. 

 

 

Conheça a Pedagogia Para Liberdade 

www.pedagogiaparaliberdade.com 

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